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Mãe levava filha para escola técnica por medo da violência, encanta-se pelo curso e vira colega de classe dela

O ônibus que liga a comunidade do Loteamento de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Santo Antônio, zona urbana de Carpina, na Mata Norte, faz duas viagens no período da noite: uma com saída às 18h e outra de volta, às 22h. A única pessoa do bairro que se desloca todos os dias para a Escola Técnica Estadual Maria Eduarda Ramos de Barros é a estudante Janaína Maria de Almeida Silva, de 17 anos, que cursa administração na modalidade subsequente. Há dias em que o coletivo não passa e, por isso, a estudante fica presa diversas vezes no centro da cidade, contando apenas com mototáxis ou com a carona de amigos. 

A situação desagradou os pais de Janaína, que insistiam para que ela desistisse das aulas. Antes dela, ninguém na família tinha feito curso técnico ou superior. Mas isso não foi motivo para que ela desistisse do sonho de concluir a formação profissional. Ao invés disso, usa o estudo como combustível e estímulo para conseguir a companhia da mãe, que foi convencida a fazer o processo seletivo para ingressar na mesma instituição. Mais tarde, também conseguiu animar a irmã caçula. Isso só foi possível porque a educação profissional, que antes era um privilégio, hoje chega com maior abrangência ao interior do estado e alcança pessoas com trajetórias como a delas. 

A autônoma Sandra Maria de Almeida, mãe de Janaína, afirma que o que começou pela conveniência da segurança da filha, acabou como uma das maiores oportunidades que já recebeu na vida. "Fiquei muito contente, porque a partir do momento em que ela começou a estudar lá, abriu novas portas para nós. Além disso, ela conseguiu o primeiro estágio, em uma clínica de odontologia, e agora trabalha em um tribunal. Assim, ela vai comprando as coisinhas dela. Eu só tenho a agradecer", comenta, destacando que ao terminar o curso de segurança do trabalho vai fazer o processo seletivo para o curso de Qualidade, o mesmo que faz a filha caçula, Bárbara Maria Almeida. Com o dinheiro da bolsa, Janaína investe na própria educação: comprou notebook e impressora e também instalou internet em casa.  

A colocação no mercado também colaborou para o desenvolvimento de uma autoestima profissional que Janaína afirma que não tinha antes. "Eu entregava currículos em todos os lugares, mas o mercado de trabalho não me olhava como me olha hoje, porque eu não tinha nada que chamasse atenção no meu currículo”. Com apenas informática básica e o ensino médio completo, Janaína tinha certeza de que estava alguns passos atrás das pessoas da mesma faixa etária que possuíam cursos profissionalizantes e técnicos na bagagem.  
O aumento de ETES em Pernambuco tem garantido formação específica e direcionada ao mercado de trabalho, com inserção profissional mais ágil que a educação superior, possibilitando transformações de vida a partir da agilidade de inserção no ambiente profissional. Hoje, o estado conta com 37 unidades de ensino técnico. A expectativa é que em 2018 o número de instituições aumente para 43, com a transformação de três unidades e a construção de outras três, de acordo com a Secretaria de Educação de Pernambuco. 

Assim como Janaína, o estudante de nível técnico em design de interiores Alikis Devity Hairton, de 17 anos, utiliza a remuneração do estágio para ampliar os horizontes educacionais. A profissionalização lhe diferencia das rotinas tradicionais da economia da Mata Norte, voltadas principalmente para a plantação canavieira, já que no segundo semestre de aulas conseguiu um estágio na área de design. "A vaga surgiu aqui mesmo, em Carpina, em uma empresa de móveis planejados. Com a ajuda da coordenadora, que faz a ponte entre as empresas e a escola, eu soube da oportunidade”.  

Este ano, ele vai ingressar no 3º ano do ensino médio regular, mas já faz planos para o futuro: pretende passar no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do Brasil. Graças a colocação no mercado, Alikis pretende ingressar em um cursinho preparatório para o ITA, sem comprometer a renda familiar. O empregador do estudante, Sérgio Santiago, enaltece a importância de ter uma escola técnica na região, devido ao fato de conseguir suprir as demandas com profissionais da localidade. "Design de interiores era uma mão de obra que eu precisava trazer do Recife antes da implementação deste núcleo técnico em Carpina".  
Antes da implementação das ETEs em diversos pontos do estado, era necessário se deslocar para a capital pernambucana em busca de profissionalização e até mesmo emprego. Com a estudante de administração Geysi Kelly, 24 anos, ocorreu isso. Com dificuldades para arranjar um trabalho de carteira assinada em Carpina, Geysi percorreu 45 km em direção ao Recife, em busca do registro profissional. "Só conseguia trabalhos informais e aí preferi retornar para Carpina. Quando voltei, pensei o seguinte: 'já que estou parada, vou fazer o curso técnico'. Foi quando surgiu a possibilidade de estágio e uma empresa de serviços administrativos foi em busca de um estagiário com determinado perfil e a escola fez uma triagem com nomes de vários estudantes, inclusive o meu". Assim que o período de estágio acabou, Geysi conseguiu emprego com a carteira de trabalho assinada na mesma empresa. 

Além dos estudantes residentes em Carpina, a ETE Maria Eduarda Ramos de Barros também atende pessoas dos municípios de Nazaré da Mata, Tracunhaém e Lagoa do Itaenga. A colocação profissional significativa de estudantes é resultado de um processo de sensibilização da escola técnica junto às empresas. Na mesma região, a rede estadual conta com quatro outras escolas técnicas: a ETE Miguel Arraes de Alencar (em Timbaúba), a Senador Wilson Campos (Paudalho), a Aderico Alves de Vasconcelos (Goiana) e a José Joaquim da Silva Filho (Vitória de Santo Antão), escola que era de referência em 2017 e foi transformada em técnica para o ano de 2018. 

"Abrimos espaço para as empresas virem para a escola com palestras sobre a cultura empresarial e sobre qual é o perfil que estão em busca. Com isso, saímos da cultura de emprego por indicação, que era muito forte aqui em Carpina, e entramos em uma nova realidade: uma contratação a partir da profissionalização", justifica Danielle Bonani, coordenadora profissional da ETE. De acordo com a gestora da instituição, Priscilla Santos, em 2017 a porcentagem de estudantes técnicos se aproximou de 20% dos 800 alunos, um resultado animador, tendo em vista que os cursos não cobram o estágio obrigatório. "Quem  buscou participar do processo de estágio alcançou uma oportunidade". 
MERCADO EM PERNAMBUCO  
O salário de nível técnico em Pernambuco é subcategorizado oficialmente em três faixas. A "júnior", que abrange os trabalhadores até 2 anos de profissão; a "pleno", para profissionais de 2 a 5 anos de nível técnico, e a "sênior", que inclui os profissionais que tem mais de 5 anos de profissão. A base para as três categorias são respectivamente de R$ 1.890, R$ 2.700 e  R$ 3.857. 

"Os valores foram calculados com base no ranking salarial do estado. Categorizamos dessa maneira desde 2003, para que haja mais possibilidades para o empregador e para os empregados. Assim, evitamos que o setor fique congelado em momentos de crise em que não se pode pagar altos salários para todos", acrescenta o presidente do Sindicato dos Técnicos Industriais de Pernambuco (SINTECPE), Jessé Barbosa. Segundo ele, no estado há cerca de 12 mil profissionais de nível técnico registrados. Contudo, a estimativa é que o valor seja três vezes maior, levando em consideração os profissionais que não possuem registro. Fonte: Diário de Pernambuco